E agora?, publicado no Expresso, na edição de 3 de Outubro de 2009

O PS ganhou as eleições legislativas com uma maioria relativa de votos. De imediato surgiu a pergunta: e agora? Com quem vai o PS coligar-se ou entender-se? Do ponto de vista “aritmético” entendo a questão. É necessário dispor de maiorias no Parlamento para aprovação dos principais instrumentos de governação. Mas uma leitura atenta dos programas eleitorais e dos debates televisivos bastaria para se compreender o quão limitado e complexo é o universo das respostas possíveis.

Encontrar uma solução de poder é relativamente fácil, insisto, do ponto de vista “aritmético”. Mas será essa a solução governativa de que o país precisa? Não creio. A governação não é neutra. Governar é optar e fazer escolhas em função de princípios e de valores. Em contraponto com a tese neoliberal do Estado mínimo e do mercado máximo, sem regulação.

A criação de condições de estabilidade política para o exercício da acção governativa é fundamental. Mas essa estabilidade será mais forte e útil se for alicerçada na afirmação das diferentes propostas políticas do que baseada na artificialidade de uma coligação aritmética. Estes são tempos de clarificação política e não de elasticidade ideológica. São tempos para a afirmação de um rumo coerente onde todos, dos partidos aos cidadãos, passando pelos empresários e pelos sindicatos, devemos assumir as nossas responsabilidades. A estabilidade não deve ser responsabilidade exclusiva do partido vencedor. O PS deve ser um referencial de estabilidade, mas os partidos com representação parlamentar são co-responsáveis, bem como o Presidente da República que esta semana teve uma intervenção infeliz.

Mas estarão as restantes formações partidárias disponíveis para assumirem as suas responsabilidades e contribuírem positivamente na procura de consensos para enfrentarmos os problemas do país? Ou esta legislatura será o prolongamento da campanha eleitoral na expectativa da dissolução do Parlamento e da realização de eleições antecipadas? O país não está em condições de aguentar tamanha irresponsabilidade. Há problemas graves que exigem respostas sérias e sólidas, a começar pela economia e pela justiça.

Disse e repito-o, para mim as políticas são mais importantes do que o poder. E nenhum exercício do poder pode ter como contrapartida a perda de identidade do PS. O PS deve agir de modo a respeitar a decisão dos portugueses que desejam que o PS governe num clima de compromisso e de diálogo. Mas esse compromisso e esse diálogo não devem sobrepor-se ao núcleo essencial do programa eleitoral que o PS apresentou aos portugueses.

No governo, o PS deve manter-se fiel às promessas eleitorais, à sua matriz ideológica e aos seus valores. Deve desenvolver as suas políticas de modo a superar a crise e retomarmos o crescimento económico. Só através do crescimento económico poderemos ter mais emprego e efectuar uma melhor distribuição da riqueza, reforçando a qualidade de vida das classes médias.

O PS deve apostar no investimento público e deve desenvolver e aprofundar as suas políticas sociais, nomeadamente na qualificação das pessoas, no Serviço Nacional de Saúde e no apoio aos mais carenciados.

A primeira responsabilidade do PS é perante os eleitores.

 

António José Seguro

 

© António José Seguro - Todos os direitos reservados - Produzido por imaginew®