Em nome do emprego, publicado no Expresso na edição de 1 de Maio de 2009

Assinala-se hoje o 1º de Maio numa das piores conjunturas mundiais.

O desemprego está quase a atingir um em cada cinco espanhóis. A taxa de desemprego é de 17,4 por cento.

Na Alemanha o valor é assustador. Pode atingir mais de 4,7 milhões de pessoas no próximo ano. Em França, este valor deve rondar os 3 milhões.

Em Portugal, as consequências sociais da crise económica vão levar o desemprego, nas previsões mais pessimistas, para valores acima dos 10%.

Muitas destas pessoas já não regressam ao mercado de trabalho.

Outras, as que têm mais idade, podem conseguir um novo emprego mas, na grande maioria dos casos, com rendimento inferior ao que tinham agora.

A juntar a este problema temos os jovens que procuram o primeiro emprego. Os que já estão neste processo e os que vão sair das Universidades e das escolas e não encontram oportunidades.

Só com uma nova perspectiva de organização política, económica e social que permita uma retoma económica sustentável poderá haver alguma esperança. Todos os Governos europeus têm lançado medidas para atenuar o impacto deste gravíssimo problema social mas ficam muito aquém do necessário. Não basta atacar os sintomas. É necessário enfrentar as causas.

É urgente repensar novas formas de organização das comunidades. Onde os valores justifiquem os fins. A especulação e a ganância de alguns agentes financeiros não podem, repetidamente, provocar milhões de novos pobres.

Os sindicatos devem ter em conta uma nova realidade onde é tão importante salvaguardar os postos de trabalho como dar voz aos que procuram uma primeira oportunidade de emprego.

Penso novamente nos jovens. Onde a manter-se o actual estado de coisas constituirão a primeira geração de portugueses que, nos últimos 60 anos, usufruirão de menos direitos do que a geração anterior.

Acreditar que se pode mudar, num ápice, todo o sistema de governação mundial, com este tipo de preocupações sociais, poderá ser uma utopia. No entanto, passo a passo, podemos, todos os dias, ajudar à mudança.

Os EUA iniciaram um novo processo político onde algumas destas preocupações estão presentes. A Europa parece estar adormecida. Sem liderança. Apesar da natureza das eleições ser diferente, atente-se no entusiasmo que provocaram as eleições nos EUA e compare-se com o das eleições europeias. Alguém acredita que os resultados das próximas eleições europeias provocarão, por exemplo, uma mudança nas políticas de promoção do emprego?

A campanha eleitoral para as eleições europeias deveria estimular o debate sobre a criação de novos postos de trabalho. Deveria, mas até agora não o fez.

Hoje, ao contrário do que John Keynes afirmou, em Dezembro de 1930, o problema não é do alternador. É muito mais profundo e desfiador. É do domínio da política e não apenas da economia. E o modo como sairmos desta crise expressará a inteligência com que a enfrentámos.

O emprego, a transformar-se num bem escasso, deve poder ser partilhado por todos. Este é um dos desafios prioritários da nossa civilização.

António José Seguro

Comentários a este texto:
 
Um novo ciclo
“Em Portugal, as consequências sociais da crise económica vão levar o desemprego, nas previsões mais pessimistas, para valores acima dos 10%.

Penso novamente nos jovens. Onde a manter-se o actual estado de coisas constituirão a primeira geração de portugueses que, nos últimos 60 anos, usufruirão de menos direitos do que a geração anterior.

Só com uma nova perspectiva de organização política, económica e social que permita uma retoma económica sustentável poderá haver alguma esperança. Todos os Governos europeus têm lançado medidas para atenuar o impacto deste gravíssimo problema social mas ficam muito aquém do necessário. Não basta atacar os sintomas. É necessário enfrentar as causas.

Hoje, ao contrário do que John Keynes afirmou, em Dezembro de 1930, o problema não é do alternador. É muito mais profundo e desfiador. É do domínio da política e não apenas da economia. E o modo como sairmos desta crise expressará a inteligência com que a enfrentámos.

O emprego, a transformar-se num bem escasso, deve poder ser partilhado por todos. Este é um dos desafios prioritários da nossa civilização.”


Meu caro António José Seguro

Li atentamente o texto publicado napágina nº36 do Primeiro Caderno do jornal Expresso -dia 01 de Maio do corrente ano - . Mais uma vez os meus sinceros parabéns pela sua lucidez e sentido de oportunidade. Tomei a iniciativa de retirar 5 períodos e “fazer” nova crónica por razões pessoais e porque tenho 2 filhos na “casa” dos vinte anos. Temos um diagnóstico, que certamente é aceite e aprovado por uma grande maioria, agora falta-nos conhecer a estratégia e depois a táctica. Está na hora de voltar a página. É urgente definir novos caminhos e novos paradigmas sustentáveis. Só assim, em meu entender, se mobilizara a juventude e uma grande parte da população para os novos desafios/problemas que vão surgir a curto e médio prazo.
João Hipólito

João Hipólito
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