O Cartaz, publicado no Expresso na edição de 7 de Fevereiro de 2009

Esta semana, fiquei chocado ao ver uma fotografia de um trabalhador inglês que empunhava um cartaz onde se podia ler, cito de memória, empregos disponíveis, apenas, se não te chamares Pedro, Alfonso e Luigi.

O referido trabalhador protestava contra a contratação de trabalhadores “estrangeiros”, designadamente portugueses, espanhóis e italianos, para operarem numa refinaria de Lindsey.

O protesto tinha subjacente a reivindicação de que os empregos na refinaria inglesa deveriam ser para trabalhadores “nacionais”.

Não está em causa o direito que assiste aos trabalhadores do Reino Unido de lutarem pelo direito ao emprego. Longe disso. O que condeno é a expressão de um sentimento xenófobo para com seres humanos, dotados de iguais direitos, cujo erro foi terem nascido noutro país.

Todos nós conhecemos expressões destes sentimentos, pontualmente por razões ideológicas, mas, que se avolumam em contextos de crises económicas e sociais, como as que actualmente estamos a viver.

A solução para o desemprego no Reino Unido, ou na Europa, não passa pela substituição de trabalhadores “estrangeiros” por trabalhadores “nacionais”. Quem pensa assim ilude-se e comete um gravíssimo erro, por razões civilizacionais, económicas e sociais.

Mas também é perigoso ignorar que existe, actualmente, um imenso campo de oportunidades para o florescimento de discursos desta natureza.

Com efeito, a democracia entendida como uma sociedade fundada na igualdade, ao não satisfazer as necessidade de todos os seus membros, origina nichos de descontentamento que são aproveitados por discursos populistas e que seduzem pelo imediatismo das soluções.

Perante a realidade económica e social, ilustrada pela contracção das principais economias e pelas previsões recentes da Organização Internacional do Trabalho que apontam para que, neste ano, 30 milhões de pessoas fiquem sem emprego, o descontentamento será mais vasto e intenso.

Até ao momento, os governos têm tentado concertar estratégias e políticas para combater as crises. Foram rápidos nas respostas conjunturais à crise financeira, mas têm revelado lentidão em encontrar estratégias sólidas para enfrentarem a crise económica e a crise social.

As instituições internacionais e a própria União Europeia marcam passo.

A reunião do G-20, marcada para o mês de Março, constitui um teste à capacidade e à vontade política dos líderes mundiais quanto ao modo como enfrentarão estes problemas.

O êxito dessa reunião consolidará o caminho da cooperação internacional e do multilateralismo. O seu insucesso poderá conduzir ao proteccionismo e à emergência dos nacionalismos de má memória.

E neste caso serão os próprios governos a empunhar o cartaz que o trabalhador inglês escreveu.

A cooperação entre os países não é boa em tempos de crescimento económico e má em época de recessão.

A cooperação e a integração são essenciais à construção de um mundo mais justo e pacificado. Estas são as palavras que devem constar do cartaz.

António José Seguro

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