De um momento para o outro, os preços dos combustíveis, os preços dos alimentos e os encargos com a prestação do crédito à habitação aumentaram consideravelmente. A palavra crise regressou às nossas vidas.
Ao contrário de outras, esta crise tem uma forte dimensão estrutural. A confirmá-la está um relatório da FAO revelando que, apesar de uma quebra recente, os preços dos alimentos vão continuar a subir; bem como diversas instituições internacionais que calculam que o preço do barril do petróleo possa atingir os 200 dólares/barril.
As causas destes aumentos de preços não podem ser só explicadas pelos comportamentos especulativos. Estes dão, é certo, o seu contributo, mas talvez seja mais consequência do que causa.
As causas são outras e residem, fundamentalmente, no aumento do consumo do petróleo e dos bens alimentares, em particular, na China e na Índia. No relatório de Maio, a Agência Internacional de Energia calculou que a procura de petróleo deve subir um milhão de barris/dia e, segundo a FAO, por exemplo, a média anual do consumo de carne, por cada chinês, aumentou de 20 para mais de 50 quilos, nos últimos 28 anos.
Compreende-se o ciclo nas economias emergentes: aumento dos rendimentos leva ao aumento do consumo.
A chave do problema não está na imposição de limitações ao crescimento daquelas economias. Os chineses e os indianos, como qualquer outro ser humano têm todo o direito a melhorar as suas condições de vida e o que está a acontecer, neste inicio de século, aconteceu, nomeadamente, connosco no século passado.
Os acordos de comércio geraram mais riqueza e incrementaram o acesso de mais pessoas a bens que outrora eram repartidos pelas populações dos países desenvolvidos. E isso é positivo. Daí que a solução para a crise não passa por limitar, a uma parte da população, o acesso a esses bens, mas debater de que forma esses bens devem ser colocados à disposição da população mundial de uma forma equitativa e sustentável.
Ora, esse debate interpela-nos sobre a natureza do nosso modelo de desenvolvimento e apesar da discussão sobre o nosso destino colectivo já se ter iniciado por via das alterações climáticas, adquire agora maior dimensão e urgência dado o seu impacto no nosso quotidiano, em particular no das classes médias.
Hoje, mais do que ontem, as populações começam a despertar para os problemas e, nalguns casos, a tomarem consciência dos desafios que se colocam aos nossos níveis de qualidade de vida e á própria paz mundial.
As causas desta crise estarão, maioritariamente, nos mecanismos mais simples do funcionamento dos mercados, mas as responsabilidades são do domínio da política que não tem sabido encontrar respostas para problemas, como o do desemprego.
O mundo está num processo de mudança, o que é natural. Aos responsáveis políticos cabe compreender as tendências dessa mudança, partilhá-las de modo transparente com os cidadãos, beneficiar da informação e da evidência científica para antecipar cenários e formular propostas políticas duradouras alicerçadas numa agenda de prioridades que devolva horizontes de esperança às pessoas.
Quem assim proceder ganhará o combate ideológico que parece ter regressado ao nosso país, nesta Primavera tão instável quanto surpreendente.
António José Seguro |